Chamado pelo nome: como trabalhar EI01EF01 na Educação Infantil
Como referenciar este texto: Chamado pelo nome: como trabalhar EI01EF01 na Educação Infantil. Rodrigo Terra. Publicado em: 10/08/2026. Link da postagem: https://www.makerzine.com.br/chamado-pelo-nome-como-trabalhar-ei01ef01-na-educacao-infantil/.
A habilidade EI01EF01 da BNCC convoca professoras e professores da Educação Infantil a criarem experiências nas quais bebês e crianças pequenas reconheçam quando são chamados pelo próprio nome e identifiquem os nomes de pessoas com quem convivem.
Mais do que “decorar” letras, trata-se de fortalecer vínculos, identidade e pertencimento. O nome próprio é um poderoso organizador das interações cotidianas, da autonomia e da comunicação.
Este artigo apresenta um caminho didático inicial: observação e escuta ativa, organização do ambiente, propostas lúdicas e inclusivas, uso responsável de tecnologias, além de pistas para avaliação formativa e diálogo com as famílias.
Com intencionalidade pedagógica e respeito às singularidades (incluindo nomes sociais, pronúncias e línguas de origem), o trabalho com nomes torna-se um eixo integrador das rotinas, brincadeiras e projetos.
O que a habilidade EI01EF01 desenvolve
Reconhecer o próprio nome e o de pessoas próximas integra a construção da identidade, da noção de pertencimento ao grupo e da comunicação responsiva em contextos de cuidado e brincadeira.
Na prática, envolve atenção conjunta, memória de nomes e faces, escuta de diferentes vozes, além de pistas visuais (fotos, crachás) e sonoras (chamada, canções).
Ao mesmo tempo, a habilidade impulsiona o desenvolvimento linguístico: amplia o repertório afetivo de palavras, fortalece a relação entre sons e sentidos e inaugura experiências de consciência fonológica, como perceber rimas, sílabas e letras iniciais do próprio nome e dos colegas. Também favorece a compreensão de diferentes pronúncias, sotaques e línguas presentes no grupo, promovendo respeito e curiosidade pela diversidade linguística.
No campo socioemocional, ser chamado pelo nome sustenta a segurança afetiva e o sentimento de ser visto, o que melhora a autorregulação e a disposição para participar. Do ponto de vista cognitivo, mobiliza funções executivas como atenção seletiva, memória de trabalho e controle inibitório: a criança precisa identificar quando é a sua vez, manter em mente sinais associados ao nome e responder de modo adequado às situações de rotina.
Ainda, a EI01EF01 fomenta autonomia e inclusão ao articular múltiplas linguagens e suportes: crachás, fotos, pictogramas, sinais em Libras, objetos de referência e marcações táteis ou em braille ajudam diferentes crianças, inclusive as com deficiências, a reconhecer nomes e pertences. Considerar nomes sociais, grafias de origem e preferências de chamada fortalece vínculos, garante respeito às identidades e cria um ambiente de participação equitativa.
Observação inicial e registros
Inicie com um mapeamento intencional: observe, ao longo do dia, como cada criança reage quando é chamada pelo próprio nome em diferentes momentos da rotina (chegada, roda, brincadeiras, alimentação, cuidados, despedida). Anote registros breves com data, contexto e descrição objetiva da resposta, evitando julgamentos. Esses dados inaugurais servirão para traçar a linha de base, identificar preferências, sensibilidades e necessidades de apoio, além de orientar intervenções personalizadas.
Varie sistematicamente quem chama (colegas, diferentes adultos, vozes conhecidas e novas) e onde isso acontece (sala, parque, corredor, refeitório), verificando se atende quando chamada por diferentes vozes e em variados contextos. Observe indicadores sutis de atenção compartilhada: direção do olhar, aproximação corporal, sorriso, vocalizações, gestos de apontar ou acenar, assim como o tempo de resposta. Registre a consistência ao longo da semana para detectar progressos ou oscilações.
Integre suportes visuais e táteis: crachás, etiquetas em pertences e painéis com fotos e nomes ajudam a notar se a criança aponta, entrega ou veste o crachá com seu nome e se associa imagens aos nomes de colegas e adultos. Propostas de pareamento (foto–nome, crachá–cabide, foto–porta-retratos da turma) reforçam a associação. Garanta acessibilidade: versões em braille/alto-relevo para crianças com baixa visão, sinais em Libras e sinais próprios para crianças surdas, e a presença dos nomes nas línguas de origem para crianças multilíngues.
Inclua nomes recorrentes da rotina (professores, familiares, ambientes) e observe se a criança os reconhece em diferentes suportes e situações. Registre também como reage a variações de pronúncia e entonação do próprio nome (apelidos, diminutivos, línguas da família), respeitando o nome social e as formas de autoidentificação. Use escuta ativa e, sempre que pertinente, combine com a criança estratégias de chamada (toque leve, contato visual, sinal combinado), anotando campos como: data, momento, quem chamou, resposta observada, apoios oferecidos e próximos passos.
Transforme os registros em evidências para avaliação formativa: organize um portfólio com anotações, fotos autorizadas e pequenas narrativas, destacando avanços e planejando desafios graduais (maior distância, ruído de fundo, turnos de chamada entre pares). Compartilhe sínteses com as famílias, convidando-as a informar a pronúncia correta, histórias e significados do nome, e acordos sobre uso de imagens. Com ética e proteção de dados, os registros se tornam bússola para propostas lúdicas e inclusivas, fortalecendo identidade, vínculo e participação.
Ambiente que convida ao reconhecimento do nome
Um ambiente alfabetizador na Educação Infantil começa pela presença generosa dos nomes próprios. Disponibilize-os em diferentes suportes e linguagens, na altura do olhar das crianças, com contrastes visuais, fotos nítidas e ícones que facilitem a identificação dos menores. Além de sinalizar pertencimento aos espaços, os nomes devem ser manipuláveis, de modo que cada criança possa tocar, deslocar, organizar e “brincar de nome”, consolidando relações entre pessoas, objetos e rotinas.
O varal dos nomes é um bom ponto de partida: cartões com a foto e o nome de cada criança, acrescidos de uma cor ou padrão de referência pessoal, pendurados com prendedores robustos. Alterne periodicamente a ordem para evitar memorização apenas pela posição e convide as crianças a participar da montagem, escolhendo onde seu cartão ficará. Se possível, inclua a pronúncia registrada pela professora ou família (por exemplo, em um pequeno símbolo que lembre o som), respeitando diferentes grafias e línguas de origem.
Na entrada, mantenha crachás acessíveis, com elástico ou velcro e um símbolo individual (animal, forma, textura), para que a própria criança os vista e devolva ao sair. Esses crachás servem à marcação de presença, a brincadeiras de faz de conta e à circulação por diferentes ambientes, fortalecendo autonomia e segurança. Garanta materiais duráveis e higienizáveis, contemple nomes sociais quando houver e combine com a turma os cuidados de uso e guarda.
No cantinho do espelho, coloque etiquetas com o nome para que cada criança se observe, reconheça-se e nomeie a si e aos colegas, ampliando vocabulário e consciência de si. Próximo dali, cestos com letras grandes e táteis (EVA, madeira, feltro, lixa, relevo e, quando pertinente, braille) convidam à exploração multissensorial: buscar a letra inicial, comparar “começa igual”, experimentar composições do próprio nome e de pessoas próximas. As intervenções do adulto devem ser afetivas e oportunas, acolhendo hipóteses sem antecipar a alfabetização formal.
Por fim, um painel “Quem veio hoje?” permite que, na chegada, cada criança desloque seu nome do “em casa” para o “na escola”, instaurando uma rotina de participação e leitura do mundo escrita com sentido. Esse dispositivo também apoia a avaliação formativa: observe quem identifica a foto, quem busca a inicial, quem reconhece o nome dos colegas e como interage nas escolhas. Podem-se propor variações digitais sem expor dados sensíveis, sempre com autorização das famílias; o essencial é que o ambiente convide, diariamente, ao reconhecimento e à celebração de cada nome.
Brincadeiras e sequências didáticas curtas
Propostas lúdicas e repetíveis favorecem a antecipação e o reconhecimento progressivo dos nomes, respeitando ritmos e idades. Em sequências curtas — cinco a dez minutos, recorrentes na rotina —, a previsibilidade permite que bebês e crianças pequenas arrisquem respostas corporais e vocais, comparem marcas gráficas e consolidem vínculos afetivos. O foco não é decodificar letras, mas atribuir sentido ao próprio nome e ao dos pares em interações significativas. Pequenas variações mantêm o interesse sem perder a estrutura conhecida.
Na chamada musical, o/a educador/a entoa uma melodia fixa e canta, um a um, o nome das crianças; cada chamada é um convite para responder com um gesto, batida no tambor, balbucio ou palavra. Com o tempo, as crianças antecipam o seu momento, reconhecem padrões sonoros e até sugerem rimas. É possível alternar instrumentos, volume e andamentos, convidar quem desejar a ser ‘regente’ da vez e, quando fizer sentido, brincar de eco: o grupo repete o nome após quem foi chamado, cuidando de pronúncias, nomes sociais e preferências.
Saco surpresa dos nomes: cartões com foto e nome ficam dentro de um saco de tecido ou caixa. A cada rodada, alguém retira um cartão, nomeia quem apareceu, observa traços da imagem e chama a pessoa para realizar uma ação combinada (bater palmas, dar tchau, escolher uma canção). Para ampliar pistas, os cartões podem ter cores, texturas ou símbolos associados, favorecendo diferentes vias de reconhecimento. Rotacionar o papel de quem retira e de quem lê o nome promove autonomia e atenção conjunta.
No correio da turma, bilhetes, desenhos ou fotos circulam com o nome do destinatário; as crianças procuram o/a colega certo/a apoiando-se em marcas visuais e na comparação entre nomes próximos. Caixas de correio, prateleiras ou bolsos com fotos ajudam na organização. Já no jogo das pistas, o/a educador/a oferece indicações graduadas — “começa como o do Lucas”, “tem a foto com chapéu vermelho”, “é o nome mais comprido da roda” — e o grupo infere a quem se refere, alternando papéis para que as próprias crianças inventem novas pistas.
A memória fotográfica pode iniciar com poucos pares de foto+nome, aumentando progressivamente o conjunto conforme a turma se apropria das estratégias. Jogar em duplas favorece verbalizações do tipo ‘igual’, ‘parecido’, ‘começa com…’, além de acordos sobre turnos e checagem de acertos. Critérios de sucesso claros (participar, tentar, ajudar o par) e sessões breves e frequentes sustentam o engajamento. Para inclusão, cuide de contraste, tamanho de fonte, uso de objetos de referência e múltiplas modalidades de resposta, preservando o prazer da brincadeira.
Tecnologias e materiais: simples, intencionais e éticos
Usar tecnologias e materiais na Educação Infantil pede escolhas simples, intencionais e éticas. Recursos digitais podem ampliar pistas auditivas e visuais quando usados de forma breve, com objetivo claro e articulados às interações presenciais. No trabalho com o nome próprio alinhado à habilidade EI01EF01, a tecnologia entra como apoio à identificação, ao reconhecimento de vozes e à organização das rotinas, sem substituir o contato, a brincadeira e o olhar sensível.
Algumas estratégias potentes incluem gravar a voz de familiares dizendo o nome da criança para a chamada, trazendo afeto e familiaridade; inserir QR codes nos crachás que, com a mediação do adulto, reproduzem o áudio do nome; usar projetor ou câmera para ampliar crachás e fotos nas rodas, favorecendo a atenção conjunta; e recorrer a aplicativos simples de gravação para montar uma audioteca dos nomes da turma, com pastas por grupos, variações de pronúncia e línguas de origem. Esses recursos funcionam melhor quando conectados a jogos de pareamento, caça ao nome no espaço e cenas de faz‑de‑conta.
A simplicidade também vale para os materiais físicos. Crachás resistentes com alto contraste, fotos atualizadas, pictogramas que representem preferências das crianças e cartões táteis ajudam no reconhecimento multimodal. Um painel acessível de nomes, letras móveis grandes e uma estação de escuta com alto-falante de baixa potência ou botões de gravação reutilizáveis permitem autonomia sem exigir telas. Priorize soluções de baixo custo, reutilizáveis e de fácil manutenção, reduzindo consumo e ampliando a participação.
Cuidados: garanta consentimento informado das famílias e das próprias crianças, registrando finalidades e prazos para captação e uso de imagens e áudios; proteja a privacidade evitando publicar dados identificáveis e desabilitando uploads automáticos em nuvem; assegure acessibilidade com volume ajustável, legendas ou ícones, contrastes adequados e respeito a hipersensibilidades; mantenha o tempo de tela curto e sempre mediado por interação presencial; higienize fones e microfones e monitore níveis de ruído. Ofereça alternativas offline equivalentes para que nenhuma criança fique excluída.
Por fim, integre essas escolhas ao planejamento: delimite quando e por que cada recurso será usado, roteirize a mediação do adulto e combine critérios de observação para avaliação formativa (quem reconhece o próprio nome, quem identifica o de colegas, em quais contextos, com que apoios). Registre evidências em anotações, fotos consentidas e pequenos áudios, e compartilhe com as famílias para fortalecer vínculos. Com intencionalidade, brevidade e ética, tecnologias simples enriquecem o trabalho com nomes, ampliando pertencimento e participação.
Inclusão, língua e cultura dos nomes
Tratar nomes com respeito às origens, às línguas e às identidades fortalece a autoestima e educa para a diversidade desde cedo. Quando a escola legitima a maneira como cada criança é chamada em casa e na comunidade, cria um ambiente seguro e de pertencimento, no qual o nome próprio se torna um ponto de partida para interações mais empáticas e para o reconhecimento das singularidades.
A escola deve empenhar-se na pronúncia correta, perguntando como cada criança e família prefere ser chamada e valorizando o uso do nome social quando houver. Combine ajustes de forma discreta, registre o nome social em listas, crachás e portfólios, e corrija gentilmente pronúncias imprecisas ao longo da rotina. Oriente toda a equipe e dialogue com as famílias, desencorajando apelidos que desrespeitem identidades, culturas ou histórias pessoais.
Explorar histórias e significados dos nomes pode ser sensível e lúdico: rodas de conversa, convites para que as famílias compartilhem origens, mapas afetivos de lugares, canções do nome, jogos de rimas e leitura de livros que celebrem a diversidade onomástica. Evite hierarquizar ou julgar escolhas; acolha grafias, acentos e variações, e respeite quem preferir não expor detalhes pessoais. O foco está no pertencimento e na valorização de trajetórias, não na coleta de curiosidades.
Para incluir crianças surdas, registre o sinal pessoal em Libras ao lado do nome e da foto nos painéis e nos materiais de rotina. Valorize essa marca identitária, assegurando que o sinal seja reconhecido pela comunidade surda, e promova situações em que as crianças apresentem seus sinais e aprendam os dos colegas. Amplie a acessibilidade com recursos multimodais, como pictogramas e fonte ampliada, tornando o reconhecimento de nomes mais democrático.
Em contextos multilíngues, acolha variações linguísticas e adaptações: legitime diferentes pronúncias, respeite nomes compostos e diacríticos, e, quando necessário, utilize transliterações ou registros em alfabetos distintos, sempre em acordo com a família. Construa acordos de convivência para pedir, ouvir e repetir a pronúncia correta, documente as aprendizagens em painéis e portfólios, e mantenha diálogo contínuo com as famílias e a comunidade para que o uso do nome reforce vínculos, identidade e participação.
Avaliação formativa e diálogo com as famílias
A avaliação formativa em EI01EF01 foca o processo, não a comparação entre crianças. Ela observa trajetórias singulares e o contexto de cada chamada pelo nome, registrando pequenas conquistas e pistas do que apoiar a seguir. Defina critérios claros e observáveis, combine-os com a equipe e compartilhe-os com as famílias em linguagem simples. Respeite nomes sociais, pronúncias e línguas de origem, garantindo que cada criança se sinta reconhecida e segura ao ouvir e ver seu próprio nome.
Observáveis que evidenciam avanços: a criança volta o olhar, sorri, vocaliza, sinaliza em Libras ou usa comunicação alternativa e aumentativa (CAA) quando é chamada; antecipa seu turno na roda; localiza o próprio crachá no varal ou na caixa; reconhece sua foto e a associa ao nome; identifica nomes de colegas e familiares em painéis, listas de presença e organizadores da rotina; diferencia marcas gráficas como iniciais e o comprimento do nome. Considere variações de contexto (sala, pátio, refeição) e de quem chama (adultos, pares), bem como o tempo de resposta.
Instrumentos de registro incluem anotações datadas com situação e fala ou gesto da criança, fotografias de produções e painéis, pequenos áudios ou vídeos de chamadas, além de um portfólio individual que mostre progressões ao longo das semanas. Podem somar-se fichas anedóticas, mapas de participação e rubricas descritivas que indiquem níveis de autonomia. Planeje momentos periódicos de revisão desses dados, triangulando evidências. Garanta consentimento das famílias para imagens e áudios e cuide da privacidade ao compartilhar.
Nas devolutivas, envie bilhetes e realize reuniões com exemplos concretos: transcreva uma fala, descreva a situação e acrescente uma foto quando pertinente. Sugira jogos simples para casa, como brincadeiras de chamada na hora do banho, etiquetas com nomes em objetos de uso diário, jogo da memória com fotos e nomes da família, cantigas que marcam nomes e um correio de faz-de-conta. Oriente para que não haja treino exaustivo nem correções rígidas; valorize iniciativas espontâneas, celebre pequenos avanços e convide a família a compartilhar registros. Mantenha um canal contínuo de diálogo acolhedor e acessível, fortalecendo a parceria escola-família.
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